Em artigos anteriores eu descrevi algum dos problemas associados com herança, ou subtipagem, e questões ligadas a co/contravariância. Porém outra questão me chamou muito a atenção recentemente, é o fato de classes e objetos como normalmente vemos em linguagens com tipagem explícita são uma mistura de conceitos que talvez não deveriam estar juntos.
O que exatamente objetos de linguagens comuns, feito C++, oferecem? Basicamente três coisas: layout, interfaces e subtipagem. Uma classe derivada define uma estrutura de dados que é uma extensão do layout daquelas de seus parentes; o mecanismo de funções virtuais é a única forma sã de se definir interfaces; e, por fim, herança é a forma de se definir uma relação de subtipagem entre dois tipos, no caso do C++ classes.
As duas primeiras propriedades são realmente úteis, a terceira é questionável – mas não vamos atentar para isso agora. Não existe uma razão óbvia para deixar extensão estrutural e interfaces atadas uma a outra. De fato, é uma enorme limitação. Java e C# possuem o mecanismo de interfaces para resolver isso, porém ambas exigem que todas sejam definidas de antemão, ou seja, são uma minúscula fração do número potencial de interfaces que suportam. Ou seja, adora um modelo de interfaces prescritivo e não latente.
Algumas linguagens funcionais resolvem este problema adotando alguma forma de tipos de alta ordem*, que permitem uma função ser definida em termos da interface exigida de um objeto e basta este atendê-la para poder ser usado, independente de herança. Pode ser visto, a grosso modo, como um mecanismo equivalente à interfaces no Java ou C# onde cada classe não precisa definir quais suportam, basta implementar os métodos relacionados.
À primeira vista, tipos de alta ordem, ou classes de tipos na terminologia e implementação do Hakell, podem parecer a mesma coisa que templates do C++, porém a semelhança fica apenas na superfície, templates são um mecanismo de macro-expansão estruturada, não existe como validar uma função em sua definição ou uso, é necessário sempre fazer sua expansão para verificar sua validade. Outra diferença gritante é a ampla possibilidade de compartilhar código entre as várias instanciações de uma função que usa tipos de alta ordem. Existe uma longa literatura sobre o assunto e várias formas de favorecer uso de memória ou performance.
Mas voltando a questão de se subtipagem é uma propriedade interessante ou não para uma linguagem ter. Bom, teoricamente é muito interessante poder definir relações de substituibilidade, mas na prática, a maioria dos frameworks não se valem de tal princípio. Um bom exemplo é o pacote de coleções do Java, ela é toda construída em termos de interfaces e herança é usada como uma forma tosca de promover reuso de código.
O súbito interesse por linguagens funcionais nesses últimos anos vem trazendo a tona uma série de avanços que estas linguagens possuem e estavam até então restritos à comunidade científica. Está mais que na hora para começarmos a repensar todos os antigo erros e quimeras que as linguagens de programação de mercado promovem e começar a pensar como produzir algo que nos permita dar o mesmo salto dos anos 60 que Algol e Fortran garantiram – e dessa vez nenhum idéia pode ser refém.
*A wikipedia, apesar de extensão não tem uma referencia para tipos de alta ordem, então vou me valer como referencia lógica de alta ordem e deixar como exercício a aplicação do mesmo para teoria de tipos. Type classes do Haskell podem ser construídas aplicando lógica de alta ordem à um sistema de tipos básico como o descrito em “Basic Simple Type Theory – Hindley, J. Roger”.
1 response so far ↓
1 Proteu Alcebidiano // Dec 2, 2008 at 6:13 am
Seu artigo lembrou-me o Joe Armstrong, ele questiona o modo como OOP organiza informação para construir sistemas. High-order functions é uma maneira legal de generalizar comportamento, e pelo que vi, linguagens funcionais colocam o comportamento de um sistema num pedestal maior do que as informações que neles trafegam, sem precisar agrupar isso em coisa do tipo – classe -> métodos + atributos. =) dá até uma ânsia de ter linguagens funcionais tornando-se mais populares ;)
T+
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