Essa foi uma pergunta que eu me fiz outro dia. Ela surgiu durante uma discussão sobre possíveis soluções para o inferno diário de milhões de pessoas. O argumento da maioria dos presentes era que a única real solução era construir metro. Vim a acreditar que essa é, de longe, aquilo que nossa cidade precisa.
Basta um pouco de matemática para provar que não é cavando túneis que vamos reduzir o caos do transporte. Vamos pegar o caso de uma cidade com um transporte considerado referencia global. Londres possui 408km de metro para 7,5 milhões de habitantes, ou um quilômetro para cada 18,3mil pessoas. Enquanto isso na região metropolitana de São Paulo sobrevivem 19,2 milhões de pessoa com 68km de metro e 257km de trem, ou seja, 282,3mil se debatendo por quilômetro de metro ou 59mil se espremendo no transporte metroviário da cidade.
Fazendo uma simples regra de três, a cidade precisa de mais 720km de trilhos para ter o mesmo nível de conforto de Londres. Pronto, resolvido, só construir agora. Porém as pessoas esquecem que dois detalhes, custo e prazos. Primeiro aos custos, a linha 4 foi orçada originalmente em 1,25 bilhões de dólares e tem uma extensão de quase 13km, o que significa 155 milhões de reais por quilômetro. Por esse parâmetro, São Paulo precisa de aproximadamente 112 bilhões em investimentos, ou sete vezes mais que os 15,8 destinados a todos programas do PAC para o ano de 2008. Mas vamos esquecer isso, pois dinheiro não é o problema. Sério.
O ponto importante é o tempo de construção. No atual ritmo de quatro quilômetros ao ano as obras ficariam prontas somente em 2188. Mas as coisas vão melhorar e vamos andar na mesma velocidade frenética da construção do metrô chines em Pequim, que é cinco vezes mais rápida. Ainda assim, as obras seriam entregues em 2044, daqui 36 anos.
Ouviram bem, serão trinta e seis anos de espera se, por milagre, passarmos a construir na velocidade maluca dos chineses. Vejamos, daqui todo esse tempo eu vou ter 62 anos e a todos dos leitores desse blog terão bem mais de cinqüenta. Ou seja, vamos estar na terceira idade, próximo de nos aposentarmos. Porém se o ritmo das obras se mantiver, talvez nossos bisnetos assistam a conclusão perto do final de suas vidas.
Eu não quero esperar até minha aposentadoria para ter um transporte urbano que preste na minha cidade. Não podemos esperar mais de três décadas, precisamos disso o mais rápido possível. Precisamos para ontem, não podemos que cada um jogo fora centenas de horas parado em engarrafamentos todo ano.
Dito isso, o quanto a tecnologia mudou nossas vidas nos últimos dez anos? Em especial, vamos refletir na questão organizacional das nossas vidas. Hoje é muito fácil via celular e internet organizar reuniões e grupos – basta um tweet “vamos beber” que em uma horas estão todos no bar certo. Hoje é muito fácil centralizar, catalogar, manipular e consultar informação pertinente a milhões de pessoas em tempo real – basta pensar em coisas como redes sociais, rss e sites de busca. Por fim, hoje a informação possui uma tremenda mobilidade, um celular moderno tem localização via GPS e até 1mb de largura de banda com a internet.
Agora vamos pensar em como opera o transporte público hoje. Temos linhas de ônibus fixas e definidas por engenheiros de tráfego baseados em pesquisar de origem e destino. Nós temos rotas estáticas de transporte, você conseguiria imaginar a internet sem roteamento dinâmico de pacotes? Nós temos rotas otimizadas segundo critérios antigos – o que seria do Google se a busca fosse baseada no conteúdo de um anos atrás apenas? Nós temos itinerários e linhas que não são adaptadas as necessidades dos usuários no momento que usam – imagine usar um navegador com 30 minutos de atraso.
Nosso sistema de transporte não deve ser modernizado, precisa ser recriado, repensado e quebrar todas barreiras convencionais. Porque você precisa pegar um ônibus que passa em lugares e horários pré-definidos? Imagine se bastasse do seu celular informar seu destino que um sistema ajustaria a rota de um veículo para melhor servir você e otimizar o uso das nossas vias? Algo quase como um taxi coletivo a custos de um convencional. Hoje temos todas as peças do quebra cabeça tecnológico para viabilizar isso.
Basta começar a pensar no assunto para centenas de idéias surgirem, a maioria delas muito melhor que as minhas. Basta pensar em um modelo de transporte que seja tão ágil quanto nossa vida moderna é, ou deveria ser.
Minha contribuição, entretanto, não é a sugestão tecnológica. O transporte de São Paulo é um mercado de 8 bilhões de reais ao ano, pelo menos. Muita grana não? Porém existe uma reserva de mercado para novas empresas entrarem e na forma de atuação delas, além de um cartel de empresas controlando o serviço hoje. Todos sabemos dos prejuízos que tais reservas causam ao interesse público, por isso a única solução é abrir o setor ao mercado como um todo e permitir que as empresas decidam como operar modal que irão oferecer. O resto deixem por conta da iniciativa privada, que é mister sua capacidade de inovação em face a livre concorrência.
Todo paulistano tem a obrigação de aproveitar que estamos em ano eleitoral, discutir o assunto, questionar seu candidato e tomar uma decisão informada em novembro. Não vamos mais uma vez deixar políticos nos enganarem com suas promessas vazias. Vamos dessa vez mostrar que não temos sangue de barata e mostrar exatamente aquilo que queremos. Eu estou aqui fazendo a minha, agora você Paulistano vá fazer a sua!
6 responses so far ↓
1 Emerson Macedo // Jun 19, 2008 at 9:16 am
Eu moro aqui no Rio de Janeiro e o trânsito já tem ficado insuportávele tb. Existe a previsão que em cinco anos, nosso trânsito aqui fiquei no mesmo nível da cidade de São Paulo. O que as pessoas estão fazendo atualmente é se mudar pra próximo do trabalho, o que eu acho um absurdo, visto que você está querendo prever que vai trabalhar no mesmo lugar pra sempre ou então viverá como um nômade.
Também tenho pensado muito no assunto, pois esse fato do trânsito me irrita bastante. Compartilho do seu sofrimento, apesar de numa cidade diferente.
[]s
2 Antonio Lazaro // Jun 19, 2008 at 1:30 pm
Isto é um problema nacional a pouco mais de 1 mês no jornal da manhã da rede Globo passou um série de reportagens mostrando o grande em 4 capitais (RJ,SP,BH,POA) e todas mostraram o crescimento urbano desordenado e aumento do poder aquisitivo das pessoas, juntamente com o transporte público caotico, como fatores motivadores para a desordem do trãnsito nacional.
Não temos especialistas cuidando da engenharia de tráfegos de nossas cidades, se temos estes são muito limitados, pelo menos aqui em Salvador onde moro, a empresa que cuida da Engenharia de trafego comete atrocidades atrás de atrocidades e a prefeitura é totalmente inerte.
A cidade ainda não está tão caótica quanto SP, mas esta dificil transitar na ida ao trabalho e volta do trabalho.
E aqui é bem pior que SP, não temos metrô e o transporte público só funciona até 19h (isso mesmo, depois deste horário a rpefeitura e as empresas acreditam que ninguém mais estará nas ruas e começam a reduzir as frotas).
Para quem não acredita, experimente um dia depender de um ônibus em Salvador depois das 21h.
É um sofrimento!
As autoridades não se importam muito em proporcionar uma solução para isso, pois os políticos de hoje, só governam para hoje…Não projetam suas cidades,estados e o país para um futuro melhor.
É triste, mas…Brasil, é viver e aceitar…
3 kumpera // Jun 19, 2008 at 11:39 pm
Antonio, não devemos aceitar não. Entregar nosso dinheiro sem lutar por uma contrapartida do governo é exatamente aquilo que faz nosso pais afundar.
4 Marcos Silva Pereira // Jun 24, 2008 at 11:44 pm
Eu pensei que você chegaria em algo como trabalhar sem precisar se deslocar tanto. Quanta gente seria tirada das ruas se trabalhasse remotamente de casa?
Um sistema dinâmico de rotas é interessante, mas também levaria algum tempo para as pessoas se adaptarem, não? (provavelmente menos de 36 anos, claro). O ideal é pensar em mais de uma frente para tentar resolver o problema.
5 kumpera // Jul 7, 2008 at 1:14 pm
As pessoas conseguem se adaptar muito rápidamente a mudanças externas.
O problema não é se ajustar a novas condições, mas sim ter políticos com coragem para tal.
6 Nitai Bezerra // Dec 10, 2008 at 11:34 am
Transporte público, uma solução comum que favorece a maioria. Vejam o que estão fazendo para melhorar o nosso sistema de transporte público. http://www.onibusrecife.com.br
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